A falta de medicamentos em centros de saúde de Campinas voltou a gerar preocupação entre usuários do SUS e motivou uma denúncia pública do vereador Wagner Romão (PT). Em publicação nas redes sociais, o parlamentar afirmou que há medicamentos estocados no novo almoxarifado da Saúde, mas que a distribuição às unidades básicas não estaria ocorrendo de forma adequada.
Segundo Romão, durante visita ao novo centro de distribuição, foi possível constatar demora no recebimento de remédios por parte da empresa responsável pela logística. Ele relatou ainda que fornecedores aguardaram cerca de uma hora para concluir entregas e que uma delas sequer foi finalizada. O vereador também afirmou que não foi autorizado a entrar no local para fiscalização, o que, segundo ele, fere prerrogativas do Legislativo municipal.
“É inadmissível a denúncia que recebemos! A denúncia que recebemos é de que há estoque no local, mas os medicamentos não chegam às farmácias dos centros de saúde. Estão faltando em diversos centros de saúde da cidade medicamentos essenciais para o tratamento da população, como losartana, dipirona e até insulina, o que pode agravar e muito o quadro dos pacientes.”, afirmou o parlamentar, que cobrou explicações da Secretaria de Saúde e questionou a ausência de um plano de contingência diante da transição logística. Segundo o vereador, a população não pode esperar tanto tempo para ter acesso a remédios básicos
Romão afirma também que a falta de medicamentos não é um caso isolado de apenas uma unidade. “No Centro de Saúde Oziel, a última entrega foi feita no dia 13 de dezembro, ou seja, mais de um mês atrás. Outras duas entregas já poderiam ter ocorrido, mas não foram feitas”, afirmou o parlamentar. “Coincidência ou não, o armazenamento dos medicamentos foi terceirizado por três anos, em um contrato de R$ 19,9 milhões para uma empresa privada, a VTCLog”, conclui.
Além da denúncia política, usuários relatam dificuldades concretas no acesso a medicamentos. A agricultora periurbana Fátima Alzira Lopes dos Santos, que trabalha na horta comunitária do Parque Itajaí, afirmou que enfrentou problemas para conseguir insulina para uma amiga que a auxilia no trabalho e depende do medicamento de forma contínua.
“Fomos ao posto do Parque Itajaí e depois ao do Parque Floresta, e informaram que não tinha insulina. Disseram até que não havia insulina em Campinas”, relatou. Indignada, Fátima entrou em contato com o serviço 160 da Prefeitura e recebeu a informação de que o medicamento estava disponível apenas em duas unidades: nos centros de saúde do Guanabara e de Joaquim Egídio. “Consegui pegar no Guanabara, mas a atendente disse que outros medicamentos também estão acabando. Espero que esse problema seja solucionado imediatamente”, afirmou.
João da Silva (nome fictício, pois o entrevistado preferiu não se identificar), paciente do Centro de Saúde do Parque São Quirino, afirma que a oferta de medicamentos na farmácia da unidade é bastante limitada. Segundo ele, geralmente é possível retirar apenas dipirona e alguns remédios para controle da pressão arterial. “Qualquer outro tipo de medicamento não tem. Esses dias mesmo eu precisei de diclofenaco e tive que comprar, porque não tinha no posto”, relatou.
A Secretaria Municipal de Saúde informou, em nota, que o estoque do almoxarifado conta atualmente com mais de 96% dos itens previstos e que as faltas observadas em alguns centros de saúde são pontuais e temporárias, decorrentes da transição do antigo almoxarifado para o novo centro de distribuição, iniciada em dezembro.
De acordo com a pasta, a distribuição de parte dos medicamentos começará nesta sexta-feira (16) para as unidades que informaram falta nas farmácias. No fim de semana, nos dias 17 e 18, será realizada uma força-tarefa para garantir a reposição nos seis distritos de saúde, com abastecimento dos centros de saúde previsto entre segunda-feira (19) e sexta-feira (23).
A secretaria explicou ainda que o novo centro de distribuição tem como objetivo organizar e padronizar os processos de recebimento, armazenamento e dispensação dos medicamentos. Segundo a nota, a transição envolve inventário, reorganização e transferência do estoque dos remédios e insumos usados em toda a rede municipal. A secretaria afirma ainda que, devido à complexidade da operação, estavam previstas faltas pontuais e temporárias de alguns itens, conforme divulgado no final do ano passado e nesta quinta-feira, 15/01. Informa também que, no entanto, para reduzir esses impactos, desde o início do processo, a Secretaria de Saúde implementou um plano de contingência, com remanejamento entre unidades, reforço da frota e ampliação das equipes de transporte.