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Nora Ney: muito além da dor de cotovelo

por Editor 2 de junho de 2026
2 de junho de 2026
Nora Ney enfrentou machismo e perseguição política por suas posturas ousadas para a época Crédito: Divulgação
1,5K

Livro redimensiona imagem da estrela da era do rádio que teve uma vida atribulada envolvendo violência doméstica, divórcio litigioso, ativismo político e perseguição pelo regime militar após o golpe miltar de 1964.

“Ninguém Me Ama”, “De Cigarro em Cigarro” e “Bar da Noite” e “Só Louco” foram canções que marcaram época na música brasileira. Poucos, porém, sabem quem foi sua intérprete original. Esse desconhecimento é reflexo do apagamento que a cantora Nora Ney sofreu: suas músicas sumiram do ar e seu nome desapareceu da memória coletiva. Um dossiê organizado por Raphael Fernandes Lopes Farias vem justamente para corrigir essa lacuna, trazendo à tona aspectos pouco conhecidos de uma artista que foi muito mais do que a voz grave que eternizou o samba-canção melancólico, aquelas músicas de dor de cotovelo ou, para os mais jovens, o avô da sofrência. O país a amava e parava diante de um aparelho de rádio para ouvi-la nos anos 1950. Com seu timbre grave, a artista brilhava gravando composições de Lupicínio Rodrigues, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves e Antônio Maria, grandes autores da fase que antecedeu o advento da bossa nova.

O livro “Dossiê Nora Ney: Uma Voz Poética e Política, 100 Anos” (Garota FM Books) terá lançamentos em São Paulo nesta quinta-feira (4) e na próxima segunda (8) na Livaria Travessa Ipanema com sessões de autógrafos e debates. O projeto reúne textos de nove pesquisadores, jornalistas e acadêmicos que exploram dimensões pouco documentadas da vida e obra da artista quer destoava das cantoras de sua geração.

Iracema de Sousa Ferreira, nome real de Nora Ney, nasceu em 1922 em Olaria. Começou sua carreira artística tarde, aos 29 anos, em 1952. Mas quando chegou, chegou com força. Sua voz grave e contralto se tornou sinônimo de samba-canção melancólico, aquele repertório de “fossa” que marcava as noites das boates cariocas. “Ela inovou o tempo inteiro e tinha um jeito de cantar diferente”, afirma o pesquisador.

“Ela tinha um estilo próximo ao estadunidense. Inclusive, ela começou na rádio cantando o repertório em inglês. Ela trazia um modo de cantar mais próximo ao microfone e sussurrava alguns trechos”, disse o pesquisador em entrevista à Rádio Nacional. O estilo de Nora Ney, para ele, pode ser compreendido como samba-canção ou mesmo um “sambolero”. “Na década de 1950, sobretudo, boa parte da produção que é chamada de samba-canção é muito próxima do bolero mexicano. No caso da Nora Ney, ela tinha como uma das inspirações a cantora mexicana Elvira Rios, que era uma cantora de bolero e tinha um timbre de voz grave como da Nora”, afirma o pesquisador, que desenvolveu mestrado sobre esses gêneros musicais nas décadas de 1940 e 1950.

Lopes Farias explica que Nora Ney tratava de temáticas como o amor, da passionalidade, do abandono e da idealização. “Naquele momento, dos anos 1940 e 1950, eram músicas que tratavam muito dessas questões amorosas”. O pesquisador considera que Nora, em parceria com o marido, o também cantor Jorge Goulart (1926-2012), revelou preocupação com os direitos da mulher. “A gente fala da música de fossa, mas encontramos críticas ao machismo também”.

Porém, essa foi apenas uma faceta de sua obra. Em 1955, Nora Ney fez história ao gravar “Rock Around the Clock”, tornando-se a primeira cantora brasileira a registrar uma faixa de rock em disco. Um gesto que desafiava as expectativas sobre seu papel como intérprete e que a colocava numa categoria à parte entre suas contemporâneas.

Macaque in the trees
Nora Ney, Angela Maria e o radialista Gerdal dos Santos na Rádio Nacional | Foto: Acervo EBC/Rádio Nacional

A Era de Ouro do rádio brasileiro (anos 1940-1950) produziu várias “rainhas do rádio”: Emilinha Borba, Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Claudette Soares, Elizete Cardoso e Maysa. Todas marcaram época com suas vozes e interpretações. Mas enquanto essas artistas consolidavam carreiras baseadas no repertório de samba-canção e na sedução do público através da voz e da presença, Nora Ney trilhava um caminho radicalmente diferente. Além do rock (que ele até gravou a contragosto, por exigências comerciais), gravou sambas de morro resgatando compositores como Zé Kéti (“Diz Que Fui Por Aí”) e Nelson Cavaquinho (“Quando eu Me Chamar Saudade”) e foi também, em 1955, a primeira cantora a gravar canções de um jovem músico chamado Antônio Carlos Jobim (“O Que Vai Ser de Mim”). Além disso, se envolvia diretamente com política.

Filiada ao Partido Comunista Brasileiro, Nora Ney não apenas cantava — ela se posicionava. Junto com seu companheiro Jorge Goulart, que se tornou seu parceiro musical e pessoal após um primeiro casamento conturbado, ela viajou por países de Europa Oriental, União Soviética e China em tempos em que essas escolhas eram arriscadas para uma mulher pública. Em 1958, Nora e Jorge foram os primeiros artistas brasileiros a visitar a União Soviética, numa turnê que reafirmava seus compromissos com a militância comunista. Nenhuma outra diva da era do rádio se envolveu tanto na política.

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Com o marido Jorge Goulart, Nora Ney se apresentou em países do bloco socilaista como China e URSS | Foto: Reprodução

Sua solidariedade política se estendia também a grupos marginalizados. Um episódio revelador ocorreu em Patos de Minas (MG), quando prostitutas foram impedidas de assistir a um show seu na cidade. Nora Ney respondeu à discriminação organizando um show privativo para essas mulheres no prostíbulo, reforçando sua convicção de que a arte deveria alcançar todos, especialmente os marginalizados pela sociedade. Nora era uma artista que entendia sua voz como ferramenta política e social.

Quando a ditadura militar chegou em 1º de abril de 1964 — Nora estava apresentando-se no teatro da União Nacional dos Estudantes quando o golpe ocorreu — ela e Jorge foram praticamente afastados da vida artística brasileira. Passaram a viver em autoexílio, viajando por países do bloco comunista enquanto enfrentavam vigilância dos agentes da repressão. Esse período marcou o fim de uma era de visibilidade e sucesso que havia construído ao longo de mais de uma década. O apagamento começava ali.

Os artigos do dossiê abordam temas que raramente aparecem em narrativas sobre cantoras da sua geração: violência doméstica, aborto, experiência no cinema, relação com a imprensa e militância política. Há também análises sobre seu divórcio litigioso do primeiro marido — um feito raro para mulheres dos anos 1950 — e sua sobrevivência a uma tentativa de feminicídio – situações aparentemente impensáveis para uma personalidade. Essa mulher enfrentou repressão política e machismo estrutural para se firmar profissionalmente.

Raphael Fernandes Lopes Farias, organizador do projeto, destaca que a politização é o que mais diferencia Nora Ney de suas contemporâneas. “Ela não teve medo de usar sua atividade profissional como luta concreta por democracia e pela mundialização da cultura brasileira num tempo em que as mulheres sequer tinham direito a gerir suas próprias vidas”, afirma.

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Por sua popularidade, Nora Ney foi convencida pela gravadora a introduzir o rock no país ao gravar versão de ‘Rock Around The Clock’ | Foto: Reprodução

Diferentemente de suas contemporâneas, Nora Ney não apenas cantou — se posicionou politicamente em momentos em que essa ousadia custava caro para alguém com seu prestígio. Seu divórcio litigioso, sua filiação ao PCB, suas viagens aos países do bloco comunista, sua solidariedade com marginalizados e sua recusa em silenciar durante a ditadura a colocam numa categoria à parte. O dossiê reivindica memória num país que sempres soube apagar mulheres empoderadas. Resgatar Nora Ney é resgatar uma história que não queriam que fosse contada.

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