A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) afirmou, em nota divulgada neste domingo (29), que o furto de materiais de pesquisa em um laboratório de alta segurança do Instituto de Biologia foi um “caso isolado”, resultado de “circunstâncias atípicas”, e que não havia organismos geneticamente modificados (OGM) entre os itens subtraídos. A universidade também informou que instaurou uma sindicância interna para apurar o episódio, que segue sob investigação de órgãos federais.
O posicionamento da Reitoria ocorre dias após a prisão da professora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), detida em flagrante pela Polícia Federal em 23 de março, suspeita de retirar, sem autorização, amostras de vírus do Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada do Instituto de Biologia. O material, considerado sensível por seu potencial biológico, foi localizado com a docente após o cumprimento de mandado de busca e apreensão.

Soledad foi levada à Penitenciária Feminina de Mogi Guaçu, mas acabou liberada no dia seguinte, após audiência de custódia, mediante aplicação de medidas cautelares. Segundo as autoridades, ela pode responder por furto qualificado, fraude processual e transporte irregular de organismo geneticamente modificado, embora a natureza exata das amostras ainda seja tratada com reserva por parte dos órgãos envolvidos.
De acordo com a Unicamp, a comunicação imediata do caso à Polícia Federal e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permitiu a rápida localização e apreensão dos materiais. As amostras foram encaminhadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável por análises técnicas e pela avaliação de eventuais riscos sanitários.
A universidade ressaltou que o laboratório onde ocorreu o caso é classificado como nível de biossegurança 3 (NB-3), categoria destinada à manipulação de agentes biológicos com potencial de causar doenças graves. Esses ambientes operam sob protocolos rigorosos de segurança, com controle de acesso, equipamentos de proteção específicos e normas técnicas voltadas à contenção de riscos.
Segundo o Ministério da Saúde, agentes classificados como de nível 3 apresentam alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade, podendo causar doenças graves ou letais, muitas vezes com possibilidade de transmissão por via aérea. Ainda assim, existem medidas de prevenção e controle capazes de reduzir os riscos de disseminação.
Já os agentes de classe 2, também manipulados em estruturas laboratoriais como as da Unicamp, apresentam risco moderado para o indivíduo e baixo para a comunidade, com menor capacidade de propagação e, em geral, com tratamentos e medidas preventivas eficazes disponíveis.
Na nota, a Reitoria enfatizou que a ocorrência não representa falha sistêmica nos protocolos de segurança da universidade, destacando que o episódio é tratado como pontual. A instituição também reiterou seu compromisso com a excelência científica e com a segurança das atividades de pesquisa desenvolvidas em seus laboratórios.
Outro ponto destacado pela universidade foi a menção a uma empresa associada ao marido da docente, que participa da Incubadora de Empresas da Unicamp (Incamp), vinculada à Agência de Inovação da instituição. Segundo a Unicamp, essa participação se restringe ao uso de espaço compartilhado de escritório, sem envolvimento direto com atividades técnico-científicas ou com a gestão de laboratórios.
A motivação da retirada dos materiais, bem como o possível envolvimento de outras pessoas físicas ou jurídicas, segue sob investigação conduzida por órgãos federais. Até o momento, detalhes adicionais não foram divulgados oficialmente, em razão do sigilo que envolve o caso.
Soledad Palameta Miller é biotecnologista formada pela Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, e doutora em ciências pela própria Unicamp. Desde 2025, atua como docente na Faculdade de Engenharia de Alimentos, com pesquisas voltadas à virologia aplicada a alimentos, vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas a vírus transmitidos por água e alimentos.
A pesquisadora também possui experiência no Laboratório Nacional de Biociências, onde participou de projetos nas áreas de engenharia de vetores virais, imunomodulação e desenvolvimento de anticorpos monoclonais voltados ao tratamento de câncer. Entre suas linhas de atuação estão estudos com vírus respiratórios e aviários, além do desenvolvimento de modelos celulares para produção de vacinas.
Procurado, o advogado Pedro de Mattos Russo informou que, em razão do sigilo decretado pela Justiça Federal no âmbito do processo, a defesa não irá se manifestar fora dos autos, limitando suas declarações ao âmbito judicial.
A sindicância aberta pela Unicamp deve apurar internamente as circunstâncias do caso, paralelamente às investigações conduzidas pela Polícia Federal.