O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contou ter acertado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião na Casa Branca, nesta quinta-feira (7), a criação de um grupo com os dois países para debater o fim do tarifaço em até um mês.
Em novembro, os Estados Unidos retiraram sobretaxas de apenas parte da cesta de produtos importados do Brasil.
“Eu falei assim: ‘Vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço [do Ministério] da Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu ministro do Comércio, sentem em 30 dias e apresentem para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo’. Quem estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder”, disse, em coletiva de imprensa na embaixada do Brasil em Washington.
O presidente disse que a criação do grupo é importante devido ao fato de ainda haver algumas arestas a serem aparadas: “Tem uma divergência entre eles e nós que ficou explicitada na reunião. O ministro dele falou uma coisa, os nossos ministros falaram outra. Ora, como a gente não podia ficar debatendo o dia inteiro sobre isso, eu propus: vamos dar 30 dias.”
O petista também enfatizou ter priorizado, na conversa com Trump, “assuntos brasileiros”. “Eu queria discutir o comércio brasileiro com os Estados Unidos. Eu queria discutir a participação do Brasil no clima organizado junto com os Estados Unidos. Eu queria discutir as questões da participação dele nos minerais críticos”, afirmou.
Big techs
Ainda durante a entrevista, Lula disse ter assegurado a Trump que não há, no Brasil, qualquer limitação à atuação de plataformas digitais dos Estados Unidos. “Eles ficam achando que nós estamos proibindo as plataformas americanas de entrar no Brasil. O que nós queremos é o seguinte, entra qualquer plataforma de qualquer país do mundo no Brasil se houver a regulamentação soberana do Brasil. Era necessário vir aqui para dizer isso”, afirmou o presidente.
Vistos
Lula disse ter entregue a Trump, novamente, uma lista de pessoas bloqueadas de entrar nos EUA: “Como foi aprovada a dosimetria no Congresso Nacional, vai diminuir a pena de todo mundo. Quem sabe o Trump reconheça a necessidade de liberar o visto dos brasileiros que estão proibidos de entrar aqui.”
Pautas
A reunião durou 3 horas, seguida por um almoço na Casa Branca. Segundo o Itamaraty, as principais pautas foram a renegociação e possível retirada das sobretaxas que seguem em cima de alguns produtos brasileiros, o programa de cooperação para combate ao crime organizado internacional e as terras raras e minerais críticos.
“Nós não queremos repetir o que aconteceu com a prata na América Latina, com o ouro. O que aconteceu com o ouro de cento e poucos anos no Brasil sendo mandado para fora. Com minério de ferro que a gente manda muito para fora e a gente poderia fazer um processo de transformação interna que a gente não fez. Então, com as terras raras, a gente vai mudar de comportamento. Nós queremos que o Brasil seja o grande ganhador dessa riqueza que a natureza nos deu”, disse Lula.
Pix fora
Segundo o presidente, não falou sobre o Pix, ferramenta brasileira frequentemente criticada pelo norte-americano. “Uma das razões pelas quais eu trouxe o Dario [Durigan, ministro da Fazenda] era porque eu imaginava que o presidente Trump queria discutir a questão do Pix. Ele não tocou no assunto do Pix, então também não toquei”, disse. “Eu espero que um dia ele ainda vá fazer um Pix, tá? Porque muitas empresas americanas já fazem.”
Tudo por escrito
O presidente disse ter documentado as demandas do Brasil ao presidente norte-americano. “Eu entreguei por escrito cada assunto que eu discuti com o presidente Trump. Além dos ministros falarem, eu terminei a reunião entregando para ele cada proposta nossa, escrita em inglês”, disse Lula.
“Acho que foi uma reunião importante para o Brasil e importante para os Estados Unidos”, afirmou o presidente. “Acho que a fotografia é importante. Perceberam que o presidente Trump rindo é melhor do que ele de cara feia?”, brincou Lula.
Sem “assunto tabu”
Lula disse que não teve “assunto tabu” na conversa com Trump. “Eu disse pra ele que eu tenho interesse em discutir qualquer assunto que ele precisar E quiser discutir comigo sobre Cuba, sobre Venezuela, sobre Irã, sobre o que ele quiser, eu estou disposto a discutir”, afirmou. Ele disse que Trump afirmou que não invadiria Cuba.
Lula negou, no entanto, que tenha debatido eleições brasileiras: “Não existe nenhuma possibilidade de eu discutir esse assunto com qualquer presidente de qualquer país do mundo. Esse é um assunto brasileiro. Eles sabem disso, eles também são presidentes.”
Ele também descartou interferência de Trump no pleito. “Se ele tentou interferir nas eleições brasileiras, ele perdeu, porque eu ganhei as eleições. Eu acho que não é uma boa política um presidente de outro país ficar interferindo nas eleições de outro país. É o princípio básico”, afirmou.
Na plataforma Truth Social, Trump elogiou o encontro na Casa Branca. “Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas”, escreveu.
Ministros do governo brasileiro acompanharam Lula nas discussões a portas fechadas. Estão na comitiva os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Alexandre Silveira (Minas e Energia), Márcio Elias Rosa (MDIC) e Wellington Silva (Justiça), além de Durigan. Andrei Rodrigues, da Polícia Federal, foi aos EUA, mas não participou da reunião.