O presidente Lula afirmou, na segunda-feira (20), em Hanôver, na Alemanha, que a entrada em vigor do Acordo Mercosul–União Europeia, prevista para 1º de maio, representa uma nova fase na integração econômica entre os dois blocos e amplia a cooperação bilateral entre Brasil e Alemanha em áreas como comércio, energia, inovação e meio ambiente.
A declaração foi feita após reunião com o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, durante visita oficial que incluiu participação na Feira Industrial de Hanôver e encontros de alto nível entre governos e setor produtivo.
O Acordo Mercosul–União Europeia é um tratado de livre comércio negociado entre os dois blocos que estabelece a redução progressiva de tarifas de importação, ampliação do comércio de bens e serviços e criação de regras comuns para investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual, normas sanitárias e ambientais. As negociações começaram em 1999, foram concluídas politicamente em 2019, tiveram revisões, ajustes técnicos e processos de aprovação interna em cada bloco entre 2020 e 2025 e a entrada em vigor em 2026.
Segundo estimativas oficiais, o acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado superior a US$ 20 trilhões.
Histórico e contexto do acordo
O entendimento entre Mercosul e União Europeia é considerado um dos acordos comerciais mais longos já negociados. Ao longo das duas décadas de tratativas, o texto passou por impasses relacionados principalmente a acesso agrícola, padrões ambientais e regras de compras públicas.
A versão final busca equilibrar a liberalização do comércio com compromissos ambientais e trabalhistas, além de prever mecanismos de cooperação regulatória entre os blocos.
A entrada em vigor marca a fase de implementação do acordo, com abertura gradual de mercados e adequação de legislações internas dos países envolvidos.
Comércio e integração econômica
O acordo prevê eliminação gradual de tarifas em setores industriais e agrícolas, com impacto direto sobre o comércio entre Mercosul e União Europeia. Também estabelece regras para facilitação de investimentos e maior previsibilidade regulatória.
Durante a declaração, Lula afirmou que o acordo não se limita ao comércio. “Estamos falando de um modelo de cooperação que valoriza e protege os trabalhadores, os direitos humanos e o meio ambiente”, disse.
No entendimento do governo brasileiro, a abertura pode ampliar exportações de produtos agrícolas e industriais do Mercosul e facilitar o acesso a bens de maior valor agregado provenientes da União Europeia.
Relações Brasil–Alemanha
A Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil e uma das principais origens de investimento estrangeiro no país. O fluxo de comércio bilateral gira em torno de US$ 20 bilhões (R$ 100 bi) , com estoque de investimentos alemães superior a US$ 40 bilhões (R$ 200 bi).
O governo alemão mantém presença relevante em setores industriais no Brasil, especialmente automotivo, químico, energético e de máquinas e equipamentos.
Transição energética e meio ambiente
A cooperação em transição energética foi um dos principais eixos da visita. Os dois países discutiram ampliação de fontes renováveis, descarbonização da economia e investimentos em tecnologias limpas.
Lula defendeu o uso de biocombustíveis como alternativa para redução de emissões no transporte e afirmou que o Brasil possui capacidade produtiva consolidada há décadas.
Na área ambiental, o presidente citou a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado e destacou a cooperação com a Alemanha em fundos multilaterais voltados à preservação florestal.
A Alemanha confirmou novos aportes a iniciativas climáticas internacionais, incluindo fundos voltados à proteção de florestas tropicais e financiamento climático.
Indústria, inovação e tecnologia
Brasil e Alemanha também avançaram em cooperação industrial e tecnológica, com foco em inteligência artificial, economia circular, infraestrutura sustentável e tecnologias quânticas.
As discussões incluíram integração de cadeias produtivas e incentivo a investimentos em setores de maior valor agregado, com participação de empresas dos dois países.
Economia digital e soberania tecnológica
A agenda digital envolveu temas como proteção de dados, regulação de plataformas e desenvolvimento de infraestrutura tecnológica.
O governo brasileiro apresentou iniciativas voltadas à expansão de capacidade computacional e ao fortalecimento de autonomia tecnológica em áreas estratégicas, incluindo processamento de dados e semicondutores.
Também foram discutidas convergências regulatórias em inteligência artificial e governança digital.
Defesa e infraestrutura
Os dois países firmaram entendimentos em defesa e infraestrutura, incluindo cooperação industrial no setor naval. Um dos projetos em andamento envolve a construção de fragatas da classe Tamandaré, com possibilidade de novas unidades.
Também foram discutidas parcerias em infraestrutura sustentável e modernização logística.
Saúde e serviços públicos
Na área da saúde, o Brasil manifestou interesse em ampliar cooperação com a Alemanha para implantação de soluções digitais e sistemas hospitalares inteligentes, com foco na redução de filas e melhoria da eficiência do atendimento no sistema público.
Minerais críticos e cadeias produtivas
Outro ponto da agenda foi o potencial brasileiro em minerais críticos, considerados estratégicos para transição energética e indústria tecnológica.
O governo brasileiro defende a atração de etapas industriais de processamento no país, buscando reduzir a exportação apenas de commodities e ampliar participação em cadeias globais de valor.
Multilateralismo e governança global
Lula e Merz defenderam o fortalecimento do multilateralismo e a necessidade de reformas em instituições internacionais, incluindo o Conselho de Segurança da ONU.
Os dois governos destacaram a importância de regras multilaterais para estabilidade econômica e cooperação internacional em um cenário global de disputas comerciais e transição geopolítica.