O corte de um ipê-rosa de grande porte, realizado na manhã da última quinta-feira (22), na Rua Frei Manoel da Ressurreição, nº 1530, no bairro Guanabara, em Campinas, provocou indignação entre moradores e levantou questionamentos sobre os critérios técnicos adotados para a supressão de árvores urbanas de valor ambiental. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que um exemplar desse porte e importância deveria ter passado por exames internos mais aprofundados antes da decisão pelo corte. O ipê-rosa apresentava porte estimado de 15 metros de altura, caracterizando-se como uma árvore adulta e de grande porte e, segundo os especialistas, teria mais de 50 anos.
O ipê, espécie nativa da flora brasileira, foi suprimido após laudo do Departamento de Parques e Jardins (DPJ) da Prefeitura de Campinas, que apontou a presença de cupim, cavidade no colo, lesão no tronco e galhos secos, com risco de queda. Para engenheiros ambientais e técnicos independentes, no entanto, a avaliação apresentada foi superficial.
Engenheiro florestal e agrônomo, mestre em Arborização Urbana e integrante do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), José Hamilton afirma que, após a supressão, torna-se impossível comprovar com precisão se o corte era de fato inevitável. “Agora, depois que foi suprimido, fica complicado. Na minha opinião, uma árvore desse porte tinha que ter passado por tomografia de impulso e resistógrafo para que o laudo fosse realmente conclusivo”, explica.
Segundo ele, o documento apresentado pela prefeitura baseou-se apenas em análise visual e externa. “Foi feita uma análise superficial, mas não foi apresentada uma tomografia. Para uma supressão de uma árvore tão importante assim, tão bonita, é fundamental fazer a tomografia e a resistografia antes de decidir pelo corte”, afirma.
José Hamilton ressalta que árvores antigas, de grande porte e valor ambiental não podem ser avaliadas apenas por diagnósticos visuais. “Quando tem uma árvore antiga, com esse valor paisagístico e ambiental, principalmente sendo uma espécie nativa, a tomada de decisão correta exige um exame que garanta a efetividade, que comprove que ela não tem mais condições de permanecer no local. Pelo laudo apresentado pelo DPJ, foi feita apenas uma diagnose ambiental simples, sem aprofundamento da parte interna”, diz.
Ele destaca ainda que o próprio contrato das empresas terceirizadas de manutenção da arborização urbana prevê o uso desses exames. “Só o valor ambiental e paisagístico dessa árvore já compensaria plenamente o uso de tomografia e resistografia, que deveriam ser amplamente utilizados pela prefeitura”, completa.
A engenheira agrônoma, especializada em gestão ambiental, Rosana Negreiros também questiona a necessidade do corte. “Fiquei impressionada com o porte da árvore para ter sido cortada. Para mim, isso é um absurdo, é um crime ambiental”, afirma. Segundo ela, a supressão conflita com a legislação municipal de arborização urbana. “Não entendo por que estão fazendo isso. Pelas fotos, a impressão é de que não era necessário cortar a árvore”, disse Negreiros.
Rosana explica que a presença de cupim, isoladamente, não justifica a supressão. “Existem tratamentos para cupim, como cupinicidas sistêmicos, além de técnicas e padrões que podem ser aplicados para recuperar e preservar a árvore. O Guia de Arborização Urbana de Campinas é claro sobre os procedimentos de manutenção e sobre o que é proibido”, ressalta, referindo-se ao GALC, documento que integra a legislação municipal.

Moradores da região acompanharam o corte com tristeza e revolta. A designer Carina Cheng relata que tudo aconteceu muito rápido. “Quando percebi, já tinham cortado metade da árvore. Até conseguir tirar fotos e avisar alguém, quase tudo já tinha sido destruído”, conta. Segundo ela, o ipê era um marco do bairro. “Era enorme, a copa ficava acima da fiação, não apresentava sinais de doença e todos os anos ficava intensamente florido. Virou ponto de referência, as pessoas vinham fotografar. Dava sombra para pedestres e para a clínica. A calçada era larga, não atrapalhava ninguém.”
A publicitária Regiane Fillippini, vizinha que via o ipê da janela de casa, diz que tentou intervir. “O sentimento foi de indignação e revolta. Fui falar com os funcionários e disseram que o corte foi solicitado pela clínica. Fiquei muito surpresa. Sempre achei que cuidavam da árvore”, relata. “Essa árvore me lembrava minha mãe, que se encantava com a floração. Cheguei em casa me sentindo impotente, triste. Não conseguia olhar para o lugar onde ela existia.”
Em nota, a Prefeitura de Campinas informou que a extração do ipê-rosa foi necessária devido ao “risco de queda, após avaliação e elaboração de laudo técnico”, e que outra árvore será plantada no local. A administração municipal afirma ainda que trabalha regularmente com ações preventivas de arborização urbana e que, desde 2021, plantou mais de 650 mil mudas na cidade.
Decisão
“A avaliação da parte interna da árvore é o que garante a tomada de decisão correta sobre a supressão ou não. Segundo Hamilton, deveriam ter sido utilizados métodos minimamente invasivos da engenharia florestal para avaliar a saúde interna de árvores, diagnosticando podridões, cavidades e risco de queda sem precisar derrubá-las.
“O cupim tem graus. Para fazer a supressão de uma árvore tão significativa, é necessário constatar que a árvore está comao menos 30% de sua parte interna comprometida,ou apresentarsinais da diagnose visual, daí se opta pela supressão”, concluiu.
Ipê-rosa
O fim de julho marca a despedida de um dos períodos mais bonitos do calendário urbano: a floração dos ipês-rosa, árvore majestosa de flores vibrantes e presença imponente. Intensa e efêmera, ela dura poucos dias, cerca de cinco, antes que as flores comecem a cair. Ao longo do inverno, o colorido segue presente na paisagem com outras espécies emblemáticas, como os ipês-amarelo e branco.




