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Felicidade e percepção da saúde influenciam a longevidade de idosos, aponta estudo da Unicamp

por Editor 10 de março de 2026
10 de março de 2026
Análise de dados mostrou que mortalidade foi 60% maior em idosos que se sentiam felizes com menos frequência | Foto: Anna Bizon/Freepix
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O que define quanto tempo uma pessoa viverá? Para além de exames clínicos e diagnósticos de doenças crônicas, a resposta pode estar na forma como o indivíduo percebe a própria vida e saúde. “Entre o viver e o sobreviver”, título da tese de doutorado da fisioterapeuta Donatila Barbieri de Oliveira Souza, defendida na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, sintetiza essa distinção: o ato biológico de estar vivo é uma coisa; a experiência sentida e significativa da vida, vivida com intensidade, propósito e afeto, é outra. Ambas impactam no tempo que resta.

Analisando dados longitudinais, coletados ao longo de um período, Souza demonstrou que aquilo que o idoso sente e pensa sobre si mesmo possui valor epidemiológico real. Sentir-se feliz, avaliar positivamente a própria saúde e manter boa qualidade de vida são fatores cientificamente associados ao tempo de sobrevida na velhice. “A epidemiologia tem uma característica muito forte de medir, de trabalhar com números. Nosso desafio foi justamente mensurar o que é subjetivo. Não é algo comum, mas os resultados da pesquisa mostram o quanto isso é importante”, corrobora a pesquisadora e professora da FCM Margareth Guimarães Lima, orientadora da tese.

A pesquisa teve como base um estudo de coorte retrospectiva populacional, no qual um grupo de idosos foi identificado em dados do passado e acompanhado ao longo dos anos, e analisou três dimensões subjetivas centrais como preditoras de mortalidade em idosos: a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS), o bem-estar subjetivo (felicidade) e a autoavaliação da saúde (AAS). A fisioterapeuta analisou respostas e dados de 1.520 indivíduos de 60 anos ou mais, entrevistados originalmente no Inquérito de Saúde no Município de Campinas (ISACamp 2008/2009), levantamento que utiliza amostras representativas para coletar informações sobre a saúde da população da cidade a cada cinco anos.

Após pareamento com o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas e a realização de buscas ativas, por telefone e em visitas domiciliares, para confirmação do status vital dos participantes, a amostra final reuniu 1.311 indivíduos.

Nas entrevistas realizadas em 2008 e 2009 para o ISACamp, os idosos responderam a um conjunto de perguntas abrangentes sobre condições de vida, saúde, renda, escolaridade e bem-estar, além de perguntas diretas de autoavaliação da saúde e da felicidade. Também foi utilizado o questionário de qualidade de vida SF-36 (sigla em inglês para 36-item short form health survey), instrumento multidimensional utilizado para avaliar a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS). Ele permite mensurar, de forma quantitativa, o impacto das condições de saúde e das doenças na vida das pessoas, considerando dimensões físicas, psicológicas, emocionais e sociais.

Dez anos depois, em 2018, foi realizado o acompanhamento da coorte, permitindo a construção de curvas de sobrevida ao longo do período. Entre os resultados, a pesquisa mostrou que idosos com pior capacidade física apresentaram o dobro de risco de morte em comparação àqueles com melhor mobilidade. A sobrevida média caiu de 5,9 para 5,1 anos entre os participantes com piores índices de função física. Além disso, níveis mais baixos de saúde emocional e mental elevaram o risco de óbito em até 36%.

Ao analisar os relatos sobre a presença do sentimento de felicidade, a tese mostrou que idosos que se sentiam felizes com menor frequência apresentaram um risco de morte 60% maior em comparação àqueles que vivenciavam esse sentimento mais frequentemente. Na prática, os idosos mais felizes viveram, em média, um ano a mais do que os menos felizes, mesmo quando ambos apresentavam doenças crônicas. A felicidade funcionou como um “amortecedor”, reduzindo em 14% o efeito negativo das limitações físicas sobre o risco de morte.

“As pessoas que relataram menor frequência de felicidade viveram, em média, um ano a menos do que aquelas que relataram maior frequência. Provocamos essa reflexão perguntando: o que você faz em um ano? Quantas comemorações de aniversário, quantos momentos com a família deixam de ser vividos?”, questiona Souza. Para a pesquisadora, os resultados mostram que a felicidade não pode ser encarada apenas como um sentimento subjetivo, mas como um indicador fundamental de saúde.

“Observamos, inclusive, que alguns idosos sem doença tiveram menor sobrevida do que aqueles com alguma enfermidade. Isso mostra que existem outros fatores, além das doenças, que estão fazendo essas pessoas viverem menos”, afirma a autora.

Na análise da autoavaliação da saúde (AAS), Souza identificou que o risco de mortalidade no grupo de idosos que considerava sua saúde ruim foi 4,3 vezes superior, cerca de 300% maior, ao do grupo com percepção de saúde excelente, mesmo sem diagnóstico de doenças crônicas. Em contrapartida, o relato de sentir-se mais saudável do que outras pessoas reduziu significativamente o risco de óbito. Os resultados sugerem que a AAS pode captar fragilidades, ausência de suporte social ou sintomas iniciais que exames clínicos tradicionais podem não detectar. “Longevidade é a arte de viver com significado”, resume a fisioterapeuta ao mensurar aspectos subjetivos da saúde e transformá-los em números robustos.

Impacto na saúde coletiva

De acordo com as pesquisadoras, a tese preenche uma lacuna científica global: 98% dos estudos sobre qualidade de vida e mortalidade são realizados em países de alta renda, deixando uma zona de silêncio sobre a realidade de nações de baixa e média renda, como o Brasil, classificado como um país de renda média-alta, além de desafiar a tradição epidemiológica ao converter sentimentos em indicadores matemáticos de sobrevivência.

Para Souza, a robustez dos números serve para validar o que muitas vezes é ignorado na correria clínica: a percepção do próprio sujeito. Ela relembra que ouviu de colegas que seus objetivos beiravam o óbvio. No entanto, sua pesquisa demonstra a necessidade do rigor estatístico para corroborar as percepções: “É algo tratado como óbvio, mas que não tinha sido demonstrado em números. Muitas vezes o profissional foca nos achados físicos, mas não escuta o que o idoso está falando. Um ponto-chave é dar voz e escuta a essa população, pois há muito potencial no que ele diz sobre sua própria saúde.”

Os resultados oferecem uma aplicação prática para o Sistema Único de Saúde (SUS). As pesquisadoras propõem que perguntas simples sobre felicidade e autoavaliação sejam incorporadas ou mantidas como ferramentas de triagem na Atenção Primária à Saúde (APS). “São indicadores sensíveis de vulnerabilidade para orientar intervenções mais oportunas e precoces, integradas às práticas cotidianas da APS, juntamente com o fortalecimento da escuta qualificada”, complementa Souza.

As informações são do Jornal Unicamp (unicamp.br)

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