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Home Cultura

Voz de Elis ressurge com esplendor em versão restaurada de ábum icônico

por Editor 19 de março de 2026
19 de março de 2026
Elis Regina durante especial da TV Cultura, exibido em 1973 | Foto: Reprodução YouTube e Fotos/Divulgação
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Coroado com sua terceira estatueta, no domingo, pelo sucesso de Paul Thomas Anderson, Sean Penn aNovos recursos fazem com que ‘Elis 73’ possa ser ouvido em qualidade superior, restabelecendo a qualidade da gravação original

Avoz de Elis Regina soava, no álbum que ela lançou em 1973, como se viesse de trás de um vidro. Não por falta de talento — isso nunca foi questão — mas por limitações técnicas da captação da época, que comprometiam a clareza do que foi gravado. Cinquenta e três anos depois, o disco homônimo “Elis”, lançado originalmente pela Phonogram quando a cantora tinha 27 anos, chega às plataformas de streaming com nova mixagem e remasterização assinadas pelo produtor João Marcello Bôscoli, filho da cantora, e pelo engenheiro Ricardo Camera. O resultado é o mais próximo que se pode chegar de ouvir Elis Regina com a nitidez que ela merecia desde sempre.

O projeto nasceu de uma insatisfação antiga. Fãs mais atentos sempre apontaram o áudio do álbum de 1973 como um ponto fraco na discografia da cantora. A esperança de que algo fosse feito cresceu em 2021, quando João Marcello e o engenheiro Carlos Freitas remasterizaram “Elis 72”. Desta vez, a parceria foi com Ricardo Camera — engenheiro que acumula três Latin Grammy em 2025 —, com apoio da Universal Music Brasil, herdeira do catálogo da Phonogram.

O trabalho levou quase dois anos. Ao abrir as faixas, a dupla encontrou um cenário complicado: a gravação, feita em oito canais, trazia problemas estruturais difíceis de contornar. O mais grave era a bateria, captada com apenas um microfone, cujo som vazava para o canal do piano e criava um resíduo incômodo ao longo de todo o disco. “Tivemos de separar os sons das peças da bateria e retirar os vazamentos”, explica Camera, que demonstrou em áudio a quantidade de ruídos que surgem quando o piano é isolado. A solução exigiu precisão cirúrgica: nenhuma nota foi alterada, nenhuma intenção artística foi tocada. O que mudou foi a camada de interferência que encobria todo o material.

O resultado final incorpora a tecnologia Dolby Atmos, que distribui os instrumentos em posições específicas ao redor do ouvinte, criando algo como um palco sonoro tridimensional. “Respeitamos a ideia da gravação original e fizemos a voz de Elis sair de dentro da cabeça de quem a ouve para torná-la ainda mais confidente”, diz Camera. Para João Marcello, a restauração era uma questão pessoal. “Sempre achei o áudio desse álbum muito estranho. E muitos fãs me procuravam para dizer o mesmo.” Até o fim do ano, o relançamento ganhará também versão em LP.

Macaque in the trees
A baixa qualidade da captação original do álbum era algo que incomodova João Marcelo Bôscoli, guardião do legado de Elis | Foto: Divulgação

O álbum em si é um dos momentos mais introspectivos da carreira de Elis. Em 1972, ela havia gravado “Águas de Março” e “Casa no Campo”. Em 73, não estava para levezas. Com exceção dos sambas “Ladeira da Preguiça” e “Meio de Campo”, de Gilberto Gil, o repertório mergulha fundo: mais canções de Gil (“Oriente” e “Doente Morena”, em parceria com Duda Machado) e uma sequência de composições da dupla João Bosco e Aldir Blanc — “O Caçador de Esmeralda” (com Claudio Tolomei na coautoria), “Agnus Sei”, “Cabaré” e “Comadre”. O samba lento “É com Esse Que eu Vou”, de Pedro Caetano, e a clássica “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho com Guilherme de Brito, completam um disco que, na época, foi recebido com ressalvas por parte da crítica.

Alguns jornalistas consideraram a interpretação de Elis fria e técnica demais. Ela riu ao ser confrontada com a opinião. Décadas depois, João Marcello é mais direto. “Foi a coisa mais estúpida escrita na história da crítica mundial”, ataca.

Parte dessa percepção de frieza, no entanto, pode ter vindo do próprio áudio opaco, que impedia que a entrega emocional de Elis chegasse intacta ao ouvinte. Ouvir hoje “Folhas Secas” ou “Cabaré” na versão remasterizada é confrontar essa teoria diretamente — a voz ganha profundidade e se posiciona à frente da mixagem, enquanto detalhes dos arranjos, antes encobertos pelo ruído, aparecem com clareza. A direção musical era de Cesar Camargo Mariano, então marido da cantora.

O projeto foi concebido para celebrar os 80 anos que Elis faria em 2025, mas a complexidade do trabalho adiou o lançamento para este ano, na semana do aniversário da cantora (nascinda em 17 de março) . O disco chega agora às plataformas — e soa, pela primeira vez, como deveria ter soado desde o começo. Elis merece.

Macaque in the trees
O icônico ‘Elis 73’ ganha nova edição remasterizada e remixada pelas mãos de seu filho, o produtor João Marcelo Bôscoli | Foto: Divulgação
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