Saguis que viviam em árvores ao longo da Rodovia Engenheiro Miguel Melhado Campos (SP- 324), que liga Valinhos ao Aeroporto Internacional de Viracopos em Campinas (SP), estão aparecendo em comércios na estrada depois que os espécimes arbóreos foram cortados para a duplicação da via.
Além disso, protetores de animais estão preocupados com a quantidade de macaquinhos vistos, número infinitamente menor aos avistados quando os bichinhos viviam em bandos, nas árvores. Outra preocupação é a de que os saguis têm aparecido em comércios alimentícios, atrás de comida.
“Estão imersos em elevada vulnerabilidade fruto dos impactos diretos e negativos da obra do DER-SP (Departamento de Estradas e Rodagens do Estado de São Paulo) às margens da rodovia. Com a supressão do ecossistema (habitat natural), os saguis ficam ao leu em busca de alimentação e abrigo”, afirma o advogadoAugusto César Silva Santos Gandolfo, representante daProesp (Sociedade Protetora da Diversidade das Espécies).
“É necessário reverter essa ameaça, com monitoramento e intervenção de profissionais adequados, para correção imediata dessa situação, através de plano de manejo e resgate dessa importante espécie nativa das Mata de Cerrado e Mata Atlântica”, aponta.
“Há uma metáfora entre o que ocorre com os saguis e a população das margens da Miguel Melhado, pois ambos são vítimas da violência institucional do DER”, declara, evocando o imbróglio que envolve a desapropriação de famílias e comerciantes.
A Sociedade enviou um ofício à Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) solicitando o cumprimento das exigências ambientais previstas em lei, ou seja, a implementação do plano de manejo. Pontua a necessidade de procedimentos claros para resgatar os animais a fim de garantir a preservação da biodiversidade local.
Solicita esclarecimentos – sobre as diretrizes da agência ambiental – para assegurar que todas as atividades estejam em conformidade com a legislação e com as exigências técnicas para a proteção do ecossistema afetado, tais como: identificação das espécies, metodologias de translocação para áreas seguras, além do monitoramento pós-resgate. O texto reforça a importância de minimizar os impactos ambientais e de promover a recuperação da área.
Para o presidente do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comdema), Tiago Lira, a situação “é lastimável” porque “è um absurdo uma obra dessa envergadura não prever passagem de fauna, não prever manejo de fauna. Isso é algo absurdo”.
Ainda de acordo com o presidente, “a obra cruzou uma área, que agora os animais não têm mais como atravessar, no sentido Cerrado. A situação da Bacia do Capivari Mirim é lastimável em todos os aspectos, e essa obra da Miguel Melhado é mais uma para liquidar com a fauna, infelizmente. É um absurdo. O Estado define prioridades para as pessoas muito ricas, no caso esse megacondomínio entre Vinhedo e Louveira, que é para isso que foi feita essa rodovia”, complementa.
Outro lado
O Correio da Manhã entrou em contato com a Cetesb, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve resposta acerca dos questionamentos feitos pelos ambientalistas.
Sem licença
As obras da rodovia foram finalizadas na primeira semana de janeiro, segundo o Departamento de Estradas e Rodagem de São Paulo (DER-SP) – responsável pela duplicação, que durou 3 anos e 4 meses. Entretanto, a estrada ainda não pôde ser liberada justamente porque o DER-SP ainda não obteve a licença da Cetesb (devido a pendências no licenciamento ambiental). A liberação da rodovia está atrelada a esse documento.
Proesp
A ONG é a entidade ambientalista mais antiga de Campinas e a segunda mais antiga do Brasil. “É devido à luta da Sociedade que áreas como o Bosque dos Jequitibás, a Mata Santa Genebra, o Bosque dos Guarantãs, Bosque dos italianos, entre tantas outras, foram preservadas”, declara Lira.