Usuários do SUS voltaram a relatar ao Correio da Manhã a falta de medicamentos em centros de saúde de Campinas, mesmo após denúncias anteriores e a Prefeitura ter afirmado que o problema seria solucionado com a transição para o novo almoxarifado da Saúde.
Levantamento realizado pela reportagem no sistema municipal de consulta de medicamentos aponta que, das 68 unidades de saúde do município, 46 registravam indisponibilidade da Insulina Humana NPH 100 UI/ml no momento da verificação. O medicamento é de uso contínuo e essencial para pacientes diabéticos.
Um mês após as primeiras promessas de normalização, pacientes continuam enfrentando dificuldade para obter medicamentos essenciais, como a própria insulina e também a losartana potássica, utilizada no controle da pressão arterial, em diferentes regiões da cidade.
Procurada pela reportagem, a Prefeitura informou que a instabilidade na reposição ocorre em razão do processo de transição do antigo almoxarifado para o novo centro de distribuição. Segundo a Secretaria de Saúde, as faltas seriam pontuais e medicamentos de uso crônico e antibióticos vêm sendo atendidos por reposições emergenciais incluídas no cronograma de entregas. A pasta também orienta que a população pode retirar medicamentos em qualquer Centro de Saúde, independentemente do bairro de residência, e consultar a disponibilidade pelo site oficial.
Apesar disso, usuários afirmam que percorrem diferentes unidades, fazem consultas pelo telefone 160 e ainda assim não conseguem retirar a medicação. Para pessoas com doenças crônicas, a interrupção no fornecimento representa risco direto à saúde.
Falta de insulina em diferentes regiões
No dia 10 de fevereiro, a agricultora periurbana Fátima Alzira Lopes dos Santos informou que o Centro de Saúde Campo Grande estava sem Insulina Humana NPH 100 UI/ml (uso contínuo). Já no dia 19, voltou a procurar a reportagem. “O Centro de Saúde do Parque Itajaí continua sem insulina”, relatou.
Segundo Fátima, o medicamento não está disponível em unidades das regiões do Campo Grande, nos Centros de Saúde do Parque Itajaí, Jardim Bassoli, Satélite Íris, Sírius/Cosmos e também em Barão Geraldo.
“Liguei no 160 e nem no Posto de Saúde de Barão Geraldo tem insulina”, afirmou. De acordo com ela, embora o site da Prefeitura permita consulta sobre a disponibilidade, na prática a busca tem sido frustrada.
Nesta sexta-feira (20), a conselheira do Centro de Saúde Jardim Bassoli, Geisa Rodrigues Gonçalves, também relatou dificuldades. Diabética, ela afirma que o tema foi discutido em reunião distrital realizada na véspera.
“Eu fui na reunião do Conselho de Saúde do distrito e perguntei sobre os medicamentos, porque eu sou diabética. Está faltando insulina para mim. No meu bairro não tem, no Campo Grande não tem. Estou em Barão Geraldo para ver se consigo”, contou.
Geisa utiliza a medicação duas vezes ao dia, na proporção 50/50, e afirma ter apenas uma ampola restante. “Se acabar, eu não tenho como tomar de novo.”
Ela relatou ainda que passou por um cateterismo há menos de quatro semanas e que sua diabetes está descompensada. “Nunca fica abaixo de 160. Eu preciso dessa medicação. E como eu, tem muitas pessoas.”

Denúncias
As novas queixas ocorrem pouco mais de um mês após as primeiras reportagens sobre o tema.
Em 15 de janeiro, o Correio da Manhã noticiou que a falta de medicamentos motivou denúncia pública do vereador Wagner Romão. O parlamentar afirmou que havia medicamentos estocados no novo almoxarifado da Saúde, mas que a distribuição às unidades básicas não estaria ocorrendo de forma adequada.
Diante da situação, Romão protocolou representação junto ao Ministério Público solicitando providências imediatas em relação ao desabastecimento de medicamentos nas unidades de saúde após a terceirização do centro de distribuição da Secretaria Municipal de Saúde.
Segundo o vereador, também foi levada ao conhecimento do MP a denúncia de uso indevido de ambulâncias destinadas ao atendimento de pacientes para o transporte de medicamentos e insumos.
A terceirização do almoxarifado foi formalizada por três anos em contrato de R$ 19,9 milhões com a empresa VTCLog. A empresa foi investigada pela CPI da Covid, no Senado, em 2021, por suspeitas relacionadas a contratos com o Ministério da Saúde durante a pandemia. A empresa nega irregularidades.
Ambulâncias
Em janeiro, após as primeiras denúncias, surgiram relatos de que ambulâncias do SAEC (Serviço de Atendimento a Pacientes Especiais e Crônicos) teriam sido utilizadas para realizar entregas de medicamentos aos Centros de Saúde. Em nota enviada à reportagem na ocasião, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que as entregas foram feitas por veículos dos distritos de saúde, com apoio pontual de carros do SAEC, sem prejuízo ao atendimento de pacientes.
Imagens encaminhadas à reportagem mostraram veículos do SAEC realizando entregas em unidades básicas. Segundo relatos ouvidos sob reserva, a utilização desses veículos teria ocorrido em razão de dificuldades logísticas da empresa terceirizada responsável pela distribuição. Atualmente, não há novos registros de uso desses veículos para transporte de medicamentos, mas o episódio foi incluído na representação apresentada ao Ministério Público.