A Corregedoria da Câmara Municipal de Campinas concluiu a investigação contra o vereador Otto Alejandro (PL) e protocolou um Projeto de Resolução que prevê a suspensão temporária do mandato por 45 dias, com prejuízo dos vencimentos, após caracterização de infração ética e disciplinar.
A medida será analisada pelo plenário da Casa nesta quarta-feira (4). Para que a punição seja aplicada, o projeto precisa do voto favorável de dois terços dos vereadores. No mesmo dia, também está prevista a votação do relatório final da Comissão Processante (CP), que sugeriu o arquivamento das investigações. Neste caso, a aprovação depende de maioria simples dos parlamentares presentes.
A apuração conduzida pela Corregedoria teve origem em uma representação formal apresentada por seis vereadores, na condição de eleitores, que atribuíram a Otto Alejandro condutas públicas com ampla repercussão institucional. Segundo o documento, as atitudes do parlamentar seriam incompatíveis com os deveres éticos inerentes ao exercício do mandato, conforme previsto no Código de Ética Parlamentar da Câmara de Campinas.
A divergência entre os encaminhamentos, punição sugerida pela Corregedoria e arquivamento recomendado pela Comissão Processante, expõe um impasse político e institucional dentro do Legislativo municipal, que agora transfere a decisão final ao plenário.
Casos extrapolaram o âmbito pessoal e ganharam repercussão pública
A investigação interna da Câmara ocorre em meio a uma série de denúncias e registros envolvendo o vereador, que extrapolaram o âmbito privado e ganharam ampla repercussão pública ao longo de 2025.
Otto Alejandro é investigado pela Polícia Civil de São Paulo por violência doméstica, injúria, ameaça e dano, após denúncia registrada por sua namorada na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Campinas. O boletim de ocorrência foi feito no dia 10 de fevereiro, e a vítima relata episódios recorrentes de agressão física, violência psicológica, ameaças de morte, xingamentos e danos materiais ao longo de um relacionamento de cerca de um ano e meio.
Segundo o relato, os episódios de violência não teriam sido isolados e teriam ocorrido de forma contínua durante o relacionamento, o que motivou a busca por proteção policial.
Vídeo mostra ameaças e intimidação a funcionária de condomínio
Além da denúncia formal, imagens de uma câmera de segurança, divulgadas posteriormente, reforçaram a gravidade das acusações e ampliaram a repercussão do caso.
O vídeo, gravado em abril de 2025, mostra o vereador ameaçando, ofendendo e intimidando a porteira do edifício onde sua namorada reside. Nas imagens, a funcionária aparece visivelmente constrangida enquanto Otto Alejandro, segurando uma garrafa de cerveja e acompanhado de um homem a quem se refere como “doutor”, eleva o tom de voz e inicia uma sequência de xingamentos.
Entre as ofensas, o parlamentar faz comentários de cunho humilhante sobre o salário da funcionária (“não ganha mais que mil reais”) e profere uma frase em tom ameaçador: “A hora que você pisar para fora, nós vamos conversar”. O conteúdo do vídeo gerou forte reação pública e reforçou questionamentos sobre a conduta do vereador fora e dentro do exercício do mandato.
Testemunha relata agressões em ônibus no Centro de Campinas
Outros episódios também vieram à tona após a divulgação das imagens do condomínio. Uma testemunha que pediu para não ser identificada afirmou à reportagem ter presenciado agressões cometidas por Otto Alejandro contra passageiros e o motorista de um ônibus, na esquina das avenidas Francisco Glicério e Aquidabã, região central de Campinas, em julho de 2025.
De acordo com o relato, o vereador teria quebrado o vidro do coletivo, ameaçado passageiros e empurrado a namorada durante a confusão. A testemunha afirma ainda possuir um vídeo gravado por ela mesma que registraria o momento em que o parlamentar apedreja o ônibus e agride verbalmente as pessoas presentes.
“Tenho um vídeo dele, filmado por mim, de julho deste ano, quando ele apedrejou um ônibus, quebrou o vidro, ameaçou motorista e passageiros e empurrou a namorada, chamando de vadia”, relatou.
Debate vai além do caso individual
Embora as investigações criminais sigam sob responsabilidade da Polícia Civil e da Justiça, os episódios levantaram um debate mais amplo no Legislativo municipal sobre decoro parlamentar, responsabilidade institucional e limites entre a vida privada e o exercício do mandato público.
Na representação apresentada à Corregedoria, os vereadores autores do pedido de apuração sustentam que as condutas atribuídas a Otto Alejandro, por sua repercussão social e institucional, ferem a imagem da Câmara Municipal e comprometem a confiança pública no Parlamento.
A sessão desta quarta-feira deve ser marcada por discursos, manifestações de vereadores e possível mobilização de movimentos sociais e entidades ligadas à defesa dos direitos das mulheres. O resultado da votação poderá estabelecer um precedente importante sobre como a Câmara de Campinas lida com denúncias graves envolvendo seus membros.