Cantor de estilo grandiloquente ajuste volumes e timbres para se encaixar no formato intimista do gênero
O que pode ser mais contraditório do que Raimundo Fagner gravando bossa nova? De um lado, um gênero construído sobre a contenção — expansão harmônica, vozes sussurradas, o mínimo necessário para dizer o máximo. Do outro, um intérprete de timbre potentem expansivo e o sotaque nordestino inconfundível. Uma tensãoo produtiva se estabelece de cara. E é justamente dela tensão que nasce “Fagner – Bossa Nova”, um álbum surpreendente (e improvável) lançado pela gravadora Biscoito Fino com produção, arranjos e violões de Roberto Menescal, idealização do próprio cantor e direção vocal de José Milton. Há que se destacar a capa do disco, assinada por Gê Alves Pinto, que remete aos projetos gráficos que marcaram os lançamentos do selo Elenco, a morada artística de alguns dos principais álbuns bossanovistas.
A negociação artítica do intérprete para levar a missão a cano é cuidadosa. Fagner ajusta a emissão, limita os seus conhecidos vibratos, explora as notas graves — e ainda assim, dentro do cercado bem definido em que vive a bossa, encontra espaço para ser ele mesmo.
Cada canção do repertório escolhido carrega uma memória sua: do dia 23 de junho de 1971, quando chegou ao Rio de Janeiro, até os encontros que se seguiram com os próprios criadores do gênero. Aos poucos, sem que percebesse exatamente quando, Fagner já estava com todos eles: Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Nara Leão, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, o amigo que o tirou dos dias mais difíceis levando-o para dentro de sua casa com Elis. Um não bossa novista cearense recebido pela turma como se fosse um deles — caso raro, talvez único.
“Chega de Saudade”, de Vinicius e Tom, foi, segundo o próprio Fagner, uma sensação que nunca terminou. O jovem cantor formado por seresteiros do rádio ficou em choque ao ouvir pela primeira vez a voz e o violão de João Gilberto. “Fiquei com essa música na cabeça por anos”, recorda. Em sua voz, ela segue radiante — mas inegavelmente fagneriana. “Canto de Ossanha”, de Vinicius e Baden Powell, ganha peso nos graves encorpados pelo tempo, e a memória aqui é do próprio poeta Vinicius, que em uma festa em Salvador, logo após o lançamento do disco “Manera Fru-Fru, Manera” em 1973, virou-se para os amigos reticentes diante do novo artista cearense e disse, peito aberto: “Esse aqui vocês vão ter que aturar.”
O álbum é também um exercício de afeto declarado. “Tereza da Praia”, samba canção pré-bossa de Billy Blanco e Jobim, é dividida com Zeca Baleiro — e Fagner ainda se deslumbra por ter visto a dupla que a eternizou em 1954: “Dick Farney e Lucio Alves estavam na TV Tupi, na Urca. Nunca me esqueci.” A sinergia entre dos dois amigos nordestinos faz jus à icônica gravação de Farney e Alves, com direito a divagações sobre uma possível Teresa cearense ao fim da canção. “O Negócio é Amar”, de Carlos Lyra e Dolores Duran, evoca as tardes na Zona Sul e a genialidade do amigo Lyra. “Samba de Verão” reúne Fagner e Marcos Valle nos vocais: “Ele tinha que estar nessa. Sou fã e amigo”, afirma o cantor.
Da dupla Menescal e Bôscoli, entrou “Rio” no lugar do mais óbvio que seria “O Barquinho” – uma escolha deliberada – já que Fagner quis homenagear a canção menos regravada para celebrar um dos maiores amigos que teve, Ronaldo Bôscoli, morto em 1994. “Meu padrinho que me amava totalmente. Ele era único. Quando brigava com Elis, eu pegava o pequeno João Marcello no colo e saía da sala”, lembra com a intimidade de quem viveu de dentro aquela história.

“Samba em Prelúdio”, de Baden e Vinicius, abre com Fagner e, após os primeiros versos, entrega a interpretação à voz soprosa e sentida de Wanda Sá — um encontro que nasceu de forma inesperada, em um supermercado na Zona Sul do Rio. “Estou fazendo um álbum de bossa nova, vamos?”, disse Fagner ao vê-la. E ela foi. Já “Águas de Março” é solo: só Fagner e a gaita de Rildo Hora refazendo o que Tom Jobim fez com Elis na gravação mais conhecida, de 1974. Uma escolha que diz algo sobre a relação entre os dois artistas — Fagner se lembra de um almoço no Cobal do Leblon em 1994, meses antes da morte do compositor, quando Tom se levantou de uma mesa próxima e pediu educado: “Posso falar com o amigo de vocês?” Conduziu Fagner até sua mesa e quis conversar sem dividi-lo com ninguém. Falar sobre a vida, apenas a vida.
O álbum se encerra com “Wave”, também de Tom, com novas frases do intérprete e mais uma vez a gaita de Rildo Hora, e com “Por Causa de Você”, preciosidade de Dolores Duran com música de Jobim, que tem o violão de André Pinto-Siqueira e o piano de Adriano Souza como colaboradores discretos e (altamente) precisos. É nessa faixa que tudo o que há em Fagner cabe, finalmente, sob medida — dentro de um gênero que parecia pequeno para ele, mas que se revelou, ao longo do disco, exatamente do tamanho certo.
